18 de set de 2010

Iceberg não é banquisa; factóide não é fiascotóide

Esse caso da bolsa-famíglia de Erenice Guerra no governo Lula é só a ponta do iceberg. Os comandantes da campanha de Dilma e a própria postulante querem transformar tudo numa efêmera banquisa. Fazem cara de paisagem para o fenômeno, esperando que essa plataforma se desmanche ainda neste início de primavera, bem antes do horário de verão no Brasil.


A gatunagem e a pirataria perpetrada no convés dessa nau de insensatos em que foi transformada a Casa Civil, ancorada no camarote de cima do Palácio do Planalto, cassino flutuante da República dos Calamares, é muito diferente de uma banquisa; é mesmo um iceberg - como reconheceria com toda facilidade qualquer marinheiro de primeira viagem.

O achaque ao Tesouro brasileiro que está aparecendo mais uma vez é, no máximo 10% do que não se enxerga a olho nu. É um iceberg, sim senhor. Só a ponta emergiu à superfície. Os outros 90% permanecem submersos, representando um gigantesco perigo a todos os brasileiros que, desprevenidos, embarcaram nessa canoa furada de proporções incalculáveis.

Os timoneiros jogam para o fundo do porão uma vez mais o produto do seu permanente e sistemático avanço às arcas das burras públicas. E tratam de chamar de banquisa o que é um iceberg, assim como Dilma chamou de "factóide" o fiascotóide protagonizado pela sua mão-direita, "antiga subalterna", na Casa Civil, Erenice Guerra.

Os que se adonaram do poder e se apropriaram da coisa pública estão virando o Brasil do avesso. Com a truculência dos piratas, como se tivesse um Capitão Gancho a comandá-los, realizam as abordagens mais audaciosas, com a certeza de que transformando as tempestades em copo d'água, ninguém vai notar, nem querer saber quantos morrem na praia.

Nas suas perigosas aventuras por aí, trazem das dunas idênticas às da Sardenha, o toque siciliano para o mais grandioso litoral latino-americano. É daí que eles chegam aos grandes centros e deixam de lado a fantasia de rei, de pirata ou jardineiro para se vestir de guerrilheiros urbanos liderados em palanques por um chefe aparentemente cheio de paz e amor. Pra tudo se acabar na pasmaceira. É uma estratégia romântica. Tipo aquela que inspirou a Máfia a virar a mesa e deixar a Itália de cabeça pra baixo.

Os infiltrados no poder e em todos os poderes da República apenas imitam à perfeição o que os mafiosos da ilha da Sicília fizeram há muitos anos com o desprevenido Estado italiano. Naquele tempo foi simples assim:

Lá pelos anos 40/50 do século passado, um certo dia, cansado de ser chantageado e de pagar propina ao poder constituído, Don Corleone - il capo de tutti capi - tomou uma decisão que instituiu a relação do crime com o governo que foi adotada pelos países mais corruptos do mundo. Chamou seus mafiosos e disse:
- Chega de corromper deputados, senadores, juízes, promotores, sindicatos, governantes... Basta!
Houve um momento de certa perplexidade. Mas o Chefe logo explicou e justificou os novos tempos:
- Agora, nós também seremos deputados, senadores, juízes, promotores, donos de sindicatos e governantes.

Dito e feito. De lá para cá, o crime infiltrou-se nos poderes constituídos, nos organismos públicos e suas circunstâncias, onde se encontra até hoje gozando a maior e mais consentida dolce vita. Eles fazem as leis para eles mesmos; eles se acusam e se defendem; eles são a força dos sindicatos; eles comandam os organismos de defesa da população; eles governam para eles mesmos.

O sistema contaminou gerações e atravessou fronteiras. Chegou ao Brasil e logo infiltrou o espírito da Máfia no corpo do Estado. I la nave va.